Solução para a crise no sector da Construção?
Verlag Dashöfer: “À semelhança do que tem vindo a acontecer nos países evoluídos da União Europeia, o mercado das obras de reabilitação poderá, em breve, atingir proporções próximas dos 50%, como acontece em alguns daqueles países.” (in AECOPS). Concorda com este depoimento?
Engenheiro João Appleton: É fácil prognosticar o incremento do mercado da reabilitação de edifícios em Portugal, até por se verificar que esta actividade ainda está longe de atingir os níveis que são correntes em muitos países europeus. No entanto, não é possível estabelecer um programa temporal rigoroso, muito menos apontar sumariamente para uma meta da qual o País ainda está muito distante, dizendo que será atingida em breve.
Estou certo que o mercado da reabilitação tem condições para uma expansão contínua e significativa, mas o seu crescimento depende de muitos factores que não se podem considerar dominados. Diria que é provável que dentro de dez anos (será o que a AECOPS considera em breve?) o panorama nacional será muito diferente do que hoje é possível observar.
Verlag Dashöfer: Reabilitar vs. Construir. Que prós e contras estão associados, em traços gerais, a estes dois procedimentos em termos de custos, práticas e qualificação?
Engenheiro João Appleton: Um dos problemas que se colocam à reabilitação é precisamente o de se dominarem mal os seus custos e isso deriva, em boa medida, da carência de mão-de-obra qualificada, tanto a nível do projecto como da execução. Se de repente se criassem as condições políticas, jurídicas e económicas que também têm sido um entrave à banalização da reabilitação, verificar-se-ia, sem surpresa para muitos, que a capacidade instalada no projecto, na construção e na fiscalização de obras de reabilitação se revelaria muito insuficiente, qualitativa e quantitativamente.
As vantagens da reabilitação sobre a construção nova são muito grandes, ou podem sê-lo, em termos de ocupação racional do território (para quê continuar a inutilizar com construção terrenos que poderiam ser afectados a outras finalidades, ao mesmo tempo que se abandonam e definham as zonas centrais das cidades?), em termos ambientais (por que razão se destói o edificado, produzindo grandes quantidades de resíduos e tornando necessária a aplicação de grandes quantidades de novos materiais, eles próprios grandes consumidores de energia e ambientalmente agressivos?) e também, e sobretudo, em termos culturais (a preservação da memória dos sítios é a melhor garantia da percepção da identidade dos povos) e mesmo em termos económicos, já que preservar, adaptando o edificado, tem de ser globalmente mais económico do que demolir e reconstruir inteiramente, assim exista capacidade técnica, na produção de materiais, no desenvolvimento dos projectos e na execução.
Verlag Dashöfer: É reconhecido por uma grande maioria que reabilitar é mais dispendioso do que construir de raiz. No entanto, no momento de crise que atravessamos, reabilitar é apresentada como a melhor solução para o sector da Construção. O que mudou na vossa perspectiva?
Engenheiro João Appleton: As razões para este “falso” problema já foram avançadas antes. No entanto, deve acrescentar-se que em muitos casos a reabilitação parece mais cara na medida em que não se faz uma avaliação séria e completa dos custos globais comparados entre a construção nova e a reabilitação, escamoteando, por exemplo, os custos ambientais e os valores patrimoniais / culturais envolvidos.
Verlag Dashöfer: Na cerimónia de assinatura de acordos e contratos de habitação e reabilitação urbana para famílias carenciadas, realizada no passado dia 1 de Junho, o Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades afirmou: “Queremos menos construção nova e mais reabilitação de casas devolutas para futuro arrendamento”. Que vantagens estão associadas não só ao arrendamento, mas também à venda de imóveis reabilitados face aos que são construídos de raiz a nível económico, social (ocupação dos centros urbanos) e ambiental?
Engenheiro João Appleton: A resposta foi sendo avançada ao longo da entrevista. A reabilitação não tem de ser associada ao arrendamento. Com os problemas, verdadeiros e falsos, que têm vindo a ser apontados à “Lei das Rendas” como entrave principal à reabilitação, posição que não defendo, tentar identificar reabilitação com arrendamento pode ser um erro com consequências dramáticas. Deve reabilitar-se porque o edificado antigo representa um bem cultural muito relevante que não se pode perder e porque constitui um valor económico que não fará sentido ser anulado.
A cidade antiga tem uma clara vantagem em relação a muita cidade nova, e que consiste numa escala muito humana que lhe confere uma atractividade muito grande. Não era nem nunca foi por acaso que as cidades começaram onde começaram e a sua lógica de aglomeração urbana manteve-se ao longo de séculos. Naturalmente que as preocupações higienistas que quase conduziram à destruição sistemática das cidades antigas não podem ser descuidadas, como não o devem ser as garantias de segurança e de conforto que são a bandeira das edificações novas. No entanto, reabilitar não pode ser sinónimo de cristalizar, mas de garantir condições de utilização dos edifícios antigos iguais ou próximas das que são garantidas pelas novas edificações.
Verlag Dashöfer: Têm ideia da dimensão, em termos quantitativos, do parque urbano a requalificar em Portugal?
Engenheiro João Appleton: Têm sido referidos publicamente números que ultrapassam os 800.000 fogos para reabilitação. Atendendo a que este mercado se vai acrescentando com novos edifícios, na medida em que todos eles envelhecem e já existe a necessidade de intervencionar, para modernizar e requalificar edifícios com estruturas de betão, o mercado potencial ultrapassará largamente o milhão de fogos, sendo, por isso, uma tarefa de longo prazo para a qual serão futuramente canalizadas verbas muito importantes e um esforço considerável da indústria da construção.
Licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico, João Appleton é, em conjunto com o Engenheiro Júlio Appleton, sócio da A2P Consult Estudos e Projectos, Lda. A A2P é uma empresa com experiência na realização de estudos / projectos de novas estruturas, envolvendo quaisquer materiais e dispondo de um estrutura formada por técnicos e consultores permanentes, e associações regulares com outros gabinetes.
Entrevista: Carla Vinagre – Verlag Dashöfer
http://info-construcao-civil.blogspot.com/2009/11/reabilitacao-de-imoveis-solucao-para_16.html
Verlag Dashöfer: “À semelhança do que tem vindo a acontecer nos países evoluídos da União Europeia, o mercado das obras de reabilitação poderá, em breve, atingir proporções próximas dos 50%, como acontece em alguns daqueles países.” (in AECOPS). Concorda com este depoimento?
Engenheiro João Appleton: É fácil prognosticar o incremento do mercado da reabilitação de edifícios em Portugal, até por se verificar que esta actividade ainda está longe de atingir os níveis que são correntes em muitos países europeus. No entanto, não é possível estabelecer um programa temporal rigoroso, muito menos apontar sumariamente para uma meta da qual o País ainda está muito distante, dizendo que será atingida em breve.
Estou certo que o mercado da reabilitação tem condições para uma expansão contínua e significativa, mas o seu crescimento depende de muitos factores que não se podem considerar dominados. Diria que é provável que dentro de dez anos (será o que a AECOPS considera em breve?) o panorama nacional será muito diferente do que hoje é possível observar.
Verlag Dashöfer: Reabilitar vs. Construir. Que prós e contras estão associados, em traços gerais, a estes dois procedimentos em termos de custos, práticas e qualificação?
Engenheiro João Appleton: Um dos problemas que se colocam à reabilitação é precisamente o de se dominarem mal os seus custos e isso deriva, em boa medida, da carência de mão-de-obra qualificada, tanto a nível do projecto como da execução. Se de repente se criassem as condições políticas, jurídicas e económicas que também têm sido um entrave à banalização da reabilitação, verificar-se-ia, sem surpresa para muitos, que a capacidade instalada no projecto, na construção e na fiscalização de obras de reabilitação se revelaria muito insuficiente, qualitativa e quantitativamente.
As vantagens da reabilitação sobre a construção nova são muito grandes, ou podem sê-lo, em termos de ocupação racional do território (para quê continuar a inutilizar com construção terrenos que poderiam ser afectados a outras finalidades, ao mesmo tempo que se abandonam e definham as zonas centrais das cidades?), em termos ambientais (por que razão se destói o edificado, produzindo grandes quantidades de resíduos e tornando necessária a aplicação de grandes quantidades de novos materiais, eles próprios grandes consumidores de energia e ambientalmente agressivos?) e também, e sobretudo, em termos culturais (a preservação da memória dos sítios é a melhor garantia da percepção da identidade dos povos) e mesmo em termos económicos, já que preservar, adaptando o edificado, tem de ser globalmente mais económico do que demolir e reconstruir inteiramente, assim exista capacidade técnica, na produção de materiais, no desenvolvimento dos projectos e na execução.
Verlag Dashöfer: É reconhecido por uma grande maioria que reabilitar é mais dispendioso do que construir de raiz. No entanto, no momento de crise que atravessamos, reabilitar é apresentada como a melhor solução para o sector da Construção. O que mudou na vossa perspectiva?
Engenheiro João Appleton: As razões para este “falso” problema já foram avançadas antes. No entanto, deve acrescentar-se que em muitos casos a reabilitação parece mais cara na medida em que não se faz uma avaliação séria e completa dos custos globais comparados entre a construção nova e a reabilitação, escamoteando, por exemplo, os custos ambientais e os valores patrimoniais / culturais envolvidos.
Verlag Dashöfer: Na cerimónia de assinatura de acordos e contratos de habitação e reabilitação urbana para famílias carenciadas, realizada no passado dia 1 de Junho, o Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades afirmou: “Queremos menos construção nova e mais reabilitação de casas devolutas para futuro arrendamento”. Que vantagens estão associadas não só ao arrendamento, mas também à venda de imóveis reabilitados face aos que são construídos de raiz a nível económico, social (ocupação dos centros urbanos) e ambiental?
Engenheiro João Appleton: A resposta foi sendo avançada ao longo da entrevista. A reabilitação não tem de ser associada ao arrendamento. Com os problemas, verdadeiros e falsos, que têm vindo a ser apontados à “Lei das Rendas” como entrave principal à reabilitação, posição que não defendo, tentar identificar reabilitação com arrendamento pode ser um erro com consequências dramáticas. Deve reabilitar-se porque o edificado antigo representa um bem cultural muito relevante que não se pode perder e porque constitui um valor económico que não fará sentido ser anulado.
A cidade antiga tem uma clara vantagem em relação a muita cidade nova, e que consiste numa escala muito humana que lhe confere uma atractividade muito grande. Não era nem nunca foi por acaso que as cidades começaram onde começaram e a sua lógica de aglomeração urbana manteve-se ao longo de séculos. Naturalmente que as preocupações higienistas que quase conduziram à destruição sistemática das cidades antigas não podem ser descuidadas, como não o devem ser as garantias de segurança e de conforto que são a bandeira das edificações novas. No entanto, reabilitar não pode ser sinónimo de cristalizar, mas de garantir condições de utilização dos edifícios antigos iguais ou próximas das que são garantidas pelas novas edificações.
Verlag Dashöfer: Têm ideia da dimensão, em termos quantitativos, do parque urbano a requalificar em Portugal?
Engenheiro João Appleton: Têm sido referidos publicamente números que ultrapassam os 800.000 fogos para reabilitação. Atendendo a que este mercado se vai acrescentando com novos edifícios, na medida em que todos eles envelhecem e já existe a necessidade de intervencionar, para modernizar e requalificar edifícios com estruturas de betão, o mercado potencial ultrapassará largamente o milhão de fogos, sendo, por isso, uma tarefa de longo prazo para a qual serão futuramente canalizadas verbas muito importantes e um esforço considerável da indústria da construção.
Licenciado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico, João Appleton é, em conjunto com o Engenheiro Júlio Appleton, sócio da A2P Consult Estudos e Projectos, Lda. A A2P é uma empresa com experiência na realização de estudos / projectos de novas estruturas, envolvendo quaisquer materiais e dispondo de um estrutura formada por técnicos e consultores permanentes, e associações regulares com outros gabinetes.
Entrevista: Carla Vinagre – Verlag Dashöfer
http://info-construcao-civil.blogspot.com/2009/11/reabilitacao-de-imoveis-solucao-para_16.html
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