O “IV Encontro de Sustentabilidade na Construção: desenvolvimento urbano, projetos, obras e operação de empreendimentos”, realizado pelo CTE, reuniu 245 profissionais (sendo 99 de incorporadoras e construtoras, 42 de fornecedores de materiais e serviços, 60 de empresas de projeto e consultoria, 27 de entidades de classe, órgãos governamentais e academia, 6 de fundos de investimento e agentes financeiros, 11 de imprensa), representando 8 Estados brasileiros (DF, GO, MG, PR, PB, RJ, RN, RS e SP).
Roberto de Souza, Diretor Presidente do CTE, destacou a importância do debate e da reflexão sobre alguns aspetos importantes da sustentabilidade no mercado imobiliário e no setor da construção, que vem assumindo práticas sustentáveis especialmente em empreendimentos, projetos, materiais e obras. Mas é necessário ir além, principalmente porque a sustentabilidade desponta como tendência no mundo para um novo modelo de desenvolvimento econômico, para uma economia verde, inclusiva e responsável. Em um momento de crescimento econômico e de expansão do mercado brasileiro, o Encontro, ao trazer também profissionais e experiências de outros países, amplia a discussão, as possibilidades e oportunidades para as empresas assumirem práticas de sustentabilidade no setor da construção.
O Encontro reuniu 245 profissionais da construção de oito estados e 24 cidades brasileiras
VEJA AS PRINCIPAIS QUESTÕES APRESENTADAS E DEBATIDAS NO ENCONTRO
Cenário básico da economia brasileira é positivo
“Falta ao Brasil um plano nacional estratégico de desenvolvimento. Embora o cenário na construção, principalmente em SP e RJ, seja positivo até 2016, será necessário desenvolver novos modelos no mercado imobiliário para dar conta de toda a demanda.” (Amaryllis Romano)
O cenário básico da economia brasileira, mesmo com ameaças recentes de aumento de inflação, é positivo. A projeção é que a taxa de desemprego se situe em 5% até 2014, com a perspectiva de renda e de massa salarial continuar em expansão. Em 2010, o PIB cresceu 7,5% e a projeção para 2011, já com desaceleração, é de 3,9%, devendo ainda apresentar crescimento abaixo do potencial em 2012, para que a inflação convirja à meta, e melhore sua trajetória em 2013 e 2014. Embora a indústria esteja em sua máxima capacidade instalada na produção, devido à demanda doméstica, poderá ter fôlego pela maturação dos investimentos.
O cenário econômico do País e a evolução estimada para massa de rendimentos e para o número de novas famílias desenham um robusto cenário para a construção imobiliária. O crescimento da Classe C, que comporta o maior número de famílias, vai permitir a sustentação dos investimentos em habitação. Simultaneamente a necessidade de expansão da capacidade produtiva, bem como do setor de serviços, também contribuem como condicionantes positivas para o desempenho do setor.
O segmento de infraestrutura, a despeito de necessidades prementes para atendimento tanto da demanda doméstica, quanto daquelas relativas aos megaeventos esportivos que acontecerão até 2016, tem maior grau de incerteza em função de não haver algumas relevantes definições, especialmente quanto a modelos de financiamentos. De toda forma, a expectativa é bastante positiva para o setor da construção que deve, após o crescimento de quase 12% em 2010 é de que o desempenho fique próximo a 5,0% ao ano.
Crescimento econômico estruturado para o bem-estar da população
“Se não for bom negócio salvar o planeta, não salvaremos o planeta. Precisamos então tornar a sustentabilidade um bom negócio.” (Fabio Feldman)
O diagnóstico do nosso planeta não é nada animador e todos os grupos, organizações e comissões, que atualmente se empenham para discutir soluções ambientais para a Terra, têm sugerido uma agenda das questões mais graves para todos os segmentos produtivos. O aquecimento global é o tema mais estratégico hoje: admite-se aumento de 2°C da temperatura da Terra até o final deste século e é necessária uma redução de 50 a 80% do feito do gás estufa para não aumentar ainda mais o aquecimento. E o que tem a construção a ver com tudo isso?
O setor da construção deve inserir em sua agenda a redução das emissões e de gás de efeito estuda, fundamental para o alinhamento à agenda ambiental mundial. Ao contrário do que se imagina, em uma obra típica predial, as emissões de carbono durante a construção são pequenas, na ordem de 3 a 4%, sendo que o grosso das emissões acontecem antes da construção (na produção e fornecimento de materiais, por exemplo) e a partir da entrega das chaves aos usuários. Por isso, é necessário pensar integralmente na cadeia produtiva da construção, desde o projeto, novos materiais, construção, uso e operação, para poder medir realmente as emissões e pensar nas soluções. O setor da construção terá que se adaptar às tendências atuais quanto à sustentabilidade e às emissões e implantar uma política de gestão de emissões que contenha algumas estratégias essenciais, como análise do fornecedor (se tem práticas sustentáveis, possui inventário de emissões, se utiliza madeira certificada), eficiência energética, gestão de resíduos, etc.
Por uma economia inclusiva, verde e responsável
“O Brasil tem potencial para ser uma liderança na nova economia inclusiva, verde e responsável.” (Camila Valverde Santana)
Aos poucos, percebe-se uma crescente absorção do conceito de economia verde, que vai além do conceito de economia de baixo carbono, e absorve também os requisitos éticos e sociais de uma sociedade sustentável. Muitas iniciativas dispersas e fragmentadas que vemos hoje presentes na sociedade e nas empresas poderiam ser centralizadas por um projeto nacional de desenvolvimento sustentável.
A ‘Plataforma por uma Economia Inclusiva, Verde e Responsável’, elaborada pelo Instituto Ethos e seus parceiros, pretende estimular as empresas e o país a promover a transição para uma “Nova Economia”. Desta plataforma, fazem parte algumas referências básicas para o desenvolvimento de práticas e atividades. Quanto ao aspecto da economia inclusiva: participação da base da pirâmide na produção e consumo; erradicação da pobreza; equidade o acesso à renda, serviços básicos, bens e direitos; melhoria da qualidade de vida no conjunto da sociedade. Quanto ao aspecto da economia verde: alto nível de ecoeficiência; uso sustentável da biodiversidade; recuperação e conservação dos ecossistemas; baixo nível de emissões; uso eficiente da energia e forte predominância de fontes limpas e renováveis. Quando se trata de economia responsável: relações mercantis com alto padrão ético; alto nível de integridade e transparência; existência de mecanismos de combate à corrupção; respeito dos diferentes públicos.
Cabe às empresas do setor da construção analisar e aderir aos tópicos desta plataforma, traduzindo-os em ações e práticas que possam dar conta de soluções aos impactos e problemas dos quais o setor é responsável.
Amaryllis Romano (Economista da Tendências Consultoria Integrada), Camila Valverde Santana (Diretora de Sustentabilidade do Walmart), Fabio Feldman (Consultor Ambiental, Conselheiro do CBCS – Conselho Brasileiro de Construção Sustentável) e Roberto de Souza, Diretor Presidente do CTE, discutiram a sustentabilidade na indústria imobiliária e na construção civil e os desafios econômicos, ambientais e sociais que o setor tem pela frente
Certificação LEED ND: os critérios podem ser adaptados à realidade brasileira
“É necessário criar pacotes alternativos para o Brasil, que levem em consideração características de projetos regionais e, ao mesmo tempo, mantenham critérios internacionais de sustentabilidade.” (Sophie Lambert)
As empresas líderes de mercado estão sempre buscando se diferenciar e atender, de forma antecipada, as demandas de mercado. Existem vários tipos de conceitos e sistemas de certificação para um empreendimento sustentável hoje, mas, independente do sistema adotado, um empreendimento sustentável deve levar em consideração: a sustentabilidade do espaço (redução dos impactos da implantação do edifício no entorno), sustentabilidade dos materiais (utilização de materiais que causam menos impacto no meio ambiente), a eficiência energética (redução da demanda de energia e impactos ambientais causados pela criação de novas usinas hidrelétricas ou de outro tipo), qualidade ambiental interna (melhoria da qualidade do ambiente interno para o bem-estar dos usuários) e racionalização do uso de água (adoção de sistemas que reduzam o consumo de água potável no edifício).
O ideal seria que os empreendimentos sustentáveis estivessem inseridos em áreas urbanas que atendessem também aos requisitos de sustentabilidade da urbanização, ou seja, que estas áreas urbanas fossem também requalificadas ou concebidas com diretrizes sustentáveis. Assim, os edifícios ali inseridos poderiam almejar maior grau de sustentabilidade. Esta possibilidade de certificação de novas urbanizações ou revitalização de áreas urbanas surge com o LEED ND - Neighborhood Development, do USGBC, que contempla exigências em relação à conectividade urbana, acesso a transporte coletivo de massa, urbanização de uso misto, desenho urbano na escala do pedestre (trabalhar, estudar, morar e divertir-se preferencialmente a pé), além de quesitos que mostrem diferencial em relação à qualidade e conforto do ambiente urbanizado.
O caminho para o desenvolvimento urbano sustentável deve ser inserido na linha do tempo e pensado como um processo, e depende não apenas dos empreendedores, mas da atuação e vontade do poder público. Juntos devem caminhar para uma performance sustentável dos bairros e da ocupação urbana.
Uma nova metodologia para o desenvolvimento de projetos pressupõe o conhecimento sustentável
“Precisamos ampliar o conhecimento holístico sobre a nossa existência e a nossa permanência no planeta Terra, como o conhecemos, e entender que, como arquitetos, devemos ser provocadores e catalisadores de todos os pensamentos e movimentos pró-existência, representando-os na construção.” (Ruy Rezende)
A arquitetura sustentável, ao contemplar também a nova visão de mundo, que leva em consideração a interação entre as áreas econômicas, ambientais e sociais, muda sua metodologia de trabalho, já que há de se considerar muita pesquisa e soluções para os projetos que visam, por exemplo, as certificações dos empreendimentos. O desenvolvimento de uma arquitetura sustentável traz uma metodologia do pensamento voltada para a construção, na verdade um pensamento holístico, que envolve a construção, arquitetura, programas, condições socioambientais, consultorias, engenharias, pré-construção, conhecimento e pesquisas. Em se tratando da metodologia geral aplicada à sustentabilidade, são grandes os desafios para o desenvolvimento de projetos, pois é necessário desenvolver e aprimorar o conhecimento sustentável, aprofundando as questões culturais e de responsabilidade socioambiental, pesquisando e divulgando, entendendo o “status-quo“, saber fazer uso dos resultados apurados e das normas e referências, além de, ao final, aplicar os conceitos de forma adequada no projeto e na obra. Ou seja, ao assumir novos paradigmas, é necessário criatividade e inovação.
Quanto à metodologia de desenvolvimento de projetos sustentáveis, deverão ser considerados os seguintes quesitos: inserção urbana; terreno, implantação, áreas verdes, gestão da permeabilidade; orientação e controle da insolação, iluminação natural e artificial, ventos; conforto acústico, térmico e qualidade do ar; gestão das águas; gestão da eficiência energética; gestão do uso de materiais e resíduos; energia renovável; responsabilidade socioambiental.
Projetos mais sustentáveis e eficientes
“A sustentabilidade nos leva a fazer projetos mais eficientes e duráveis.” (Flavia Marcondes)
De forma geral, a sustentabilidade sempre fez parte do processo normal de um bom projeto de arquitetura, pois deveria levar em consideração a orientação do prédio, a otimização de eficiência energética, o conforto ambiental, a otimização de custos e a manutenção do edifício (qualidade e durabilidade dos materiais). Com o advento das certificações de empreendimentos, temos uma vetorização de mais elementos na mesma direção, qual seja, a da sustentabilidade. Hoje, são consideradas novas estratégias nos projetos para atender aos requisitos de uma certificação, como reuso de água, utilização de dispositivos economizadores de água e de consumo de energia, previsão de áreas verdes, uso de materiais de origem renovável ou reciclado, construção de bicicletários e vestiários, telhados ecológicos ou pinturas reflexivas nas coberturas, previsão de vagas preferenciais para veículos de baixas emissões, entre outros.
Coincidentemente, as equações de sustentabilidade convergem com as equações econômicas. Algumas soluções de projeto podem ter custo inicial mais elevado do que as soluções convencionais, mas a médio e longo prazo esse investimento inicial se paga e, deste ponto em diante, a curva é positiva. Os edifícios tornam-se mais duráveis, com menor custo de manutenção, menor agressão ao meio ambiente e à natureza.
Flavia Marcondes (Coordenadora de Projetos do escritório Aflalo&Gasperini Arquitetos), Sophie Lambert (Diretora para LEED ND do USGBC), Ruy Rezende (Diretor do escritório Ruy Rezende Arquitetura) e Roberto de Souza refletiram sobre a sustentabilidade no desenvolvimento urbano e de empreendimentos, abordando vários aspectos do projeto de empreendimentos e bairros sustentáveis
Renovação urbana em Paris: construir a cidade sobre a cidade de forma sustentável
“Para se alcançar o desenvolvimento urbano sustentável tem que haver muita vontade política e todas as diretrizes e regras têm que estar muito claras para toda a cadeia envolvida, pois a hierarquia é a do espaço público” (Gilles de Mont Marin)
Diferentemente da realidade brasileira, a legislação francesa concede muitos poderes às coletividades locais, especialmente em termos de urbanismo, e trata da coerência das políticas de urbanismo e de deslocamentos numa perspectiva de desenvolvimento sustentável.
Quanto à renovação urbana de Paris, todas as operações são discutidas, decididas e aprovadas pelo Prefeito e a Câmara Municipal: as grandes orientações urbanas e arquitetônicas do projeto, a programação geral das funções, o quadro jurídico e a ferramenta operacional implantada para dirigir sua política, etc. Cada projeto deve assim se situar no âmbito mais geral do Plano Local de Urbanismo e, para implementar a política “bairros sustentáveis” desejada pela Prefeitura, a coletividade dispõe de vários operadores como a SEMAPA (Sociedade de Economia Mista de Desenvolvimento Urbano de Paris), que tem a missão de desenvolvedor: adquirir os terrenos; efetuar os estudos urbanos, paisagísticos, arquitetônicos; realizar as obras de infraestruturas; vender os terrenos; conceder os direitos de construir; encarregar-se da gestão financeira da operação; inserir os projetos na política de desenvolvimento sustentável municipal; cuidar da informação para os habitantes e dos debates nos bairros durante a fase de realização dos projetos, etc.
Existem ferramentas e referenciais disponíveis, que devem ser atendidos ao se desenhar um projeto: Plano Clima de Paris 2007 (com dimensões sociais, ambientais e econômicas), Referenciais HQE para o desenvolvimento urbano e certificações HQE para edificações. A implementação dos princípios do desenvolvimento sustentável e da alta qualidade ambiental no projeto de desenvolvimento urbano sustentável comporta as fases de desenho, realização e contratação.
Todo o conceito de planejamento urbano sustentável, desde a legislação, os referenciais e as diretrizes, até a gestão de projetos, passam por uma cadeia de interação público-privada, onde a vontade política dos governantes e a responsabilidade dos realizadores são fundamentais. Temos que aprender muito com o modelo francês.
Como tratar o desenvolvimento urbano sustentável no Brasil?
“Não é necessário fornecer todas as respostas de imediato para resolvermos os problemas de nossas cidades e de nossos bairros e ainda torná-los mais sustentáveis, mas é preciso criar condições para que todas as questões sejam respondidas.” (Ana Rocha Melhado)
Os grandes problemas que afetam as cidades brasileiras estão associados diretamente ao seu porte, sendo o trânsito, a poluição do ar, a violência urbana, as favelas, os cortiços, as enchentes, a falta de saneamento básico as maléficas consequências do péssimo planejamento urbano. Em vista disso, qualquer ação urbana e arquitetônica não deve jamais ignorar o contexto que a rodeia. Não existem estilos e modelos sustentáveis que resolvam todos os nossos problemas, mas um contexto que deve ser levado em conta, que inclui a cultura local, o terreno, o programa arquitetural, técnico, ambiental e os anseios dos clientes e usuários. As tecnologias a serem utilizadas nas construções devem funcionar como aliadas na construção do produto e no atendimento aos níveis requeridos de desempenho.
Para darmos conta dos graves problemas urbanos, é necessário desenvolver um plano de ação, que envolva o setor publico e privado, no sentido de desenvolver as seguintes possibilidades: reduzir o consumo de energia e a produção de CO2; promover adequada gestão dos resíduos e minimizar seu impacto ambiental; prover alta mobilidade com reduzido impacto ambiental; reduzir o impacto ambiental; prover o uso eficiente da água; proteger e recuperar o meio ambiente; valorizar o patrimônio material e imaterial; melhorar a qualidade de vida dos habitantes; integrar as edificações com o seu entorno, reduzir o consumo de recursos e favorecer o conforto ambiental e a saúde dos usuários; integrar e recuperar comunidades locais e globais.
Pensando no caos urbano brasileiro: somos todos responsáveis
“É fundamental pensar no dia de amanhã, principalmente porque as atividades da construção demoram alguns anos entre o pensar, projetar e executar.” (Alex Abiko)
Dos 5.567 municípios brasileiros, apenas 273 (0,05%) têm mais de 100 mil habitantes e 3.921 (70%) têm menos de 20 mil habitantes. Essa minoria, no entanto, a cada dia espanta pelas tragédias, caos e inconvenientes causados a seus habitantes. Para resolver os graves problemas urbanos e crescer com planejamento e de forma sustentável, temos que trabalhar em três escalas: do município, da metrópole (que envolve um conjunto de municípios) e na escala do bairro (do quarteirão).
Na esfera do município, é preciso considerar hoje os aspectos políticos (os governantes terão que enfrentar os problemas e encontrar soluções, e a sociedade tem que cobrar e participar desse processo) e os aspectos técnicos (temos número insuficiente de profissionais e necessidade de capacitação técnica, com uma gestão de conhecimento e adequação à nossa realidade de país emergente e continental). Quanto à escala da metrópole, o maior desafio está na gestão ambiental metropolitana, que deve pensar os municípios de forma mais abrangente e interligada. Já na escala do bairro, é necessário obedecer ao plano diretor, sendo que o poder público e iniciativa privada devem trabalhar juntos.
A parceria público-privada é fundamental para enfrentar o desafio do crescimento urbano, pois as cidades são fenômenos complexos e pensar a sustentabilidade no desenvolvimento urbano é muito mais do que pensar no “verde”. Temos ainda pouca criatividade para pensar nossas cidades, precisamos desenvolver critérios de desempenho e diretrizes claras, que deverão nortear todo o planejamento.
Gilles de Mont Marin (Diretor Geral da SEMAPA – Société d’Economie Mixte d’Aménagement de Paris), Ana Rocha Melhado (Diretora da PROACTIVE), Alex Abiko (Professor da Escola Politécnica da USP) e Roberto de Souza trataram da sustentabilidade no planejamento urbano, bairros e loteamentos, abordando a renovação de espaços urbanos e os desafios para integrar a sustentabilidade ao desenvolvimento das cidades
Desafios para uma produção mais limpa
“São necessárias soluções tecnológicas em canteiros de obras visando tanto a sustentabilidade ambiental como a melhoria das condições de trabalho.” (Francisco Ferreira Cardoso)
Hoje a construção se depara com três escalas de desafios para poder promover uma produção mais limpa em seus canteiros e obras: a ambiental (implementar medidas que envolvem todos os impactos ambientais dos canteiros de obras), a social (implementar medidas, levando em conta nossa composição mista na mão de obra, voltadas aos trabalhadores próprios e aos subcontratados) e a econômica (assegurar a eficiência econômica da obra e combater a ilegalidade na cadeia produtiva).
Quanto às questões ambientais, sendo a construção fonte de diversos impactos, é necessário criar um sistema para verificação e implementação de medidas: que atividades do canteiro de obras geram impactos ambientais negativos? Quais elementos dessas atividades afetam o meio ambiente? Quais são tais impactos? Quais são os prioritários? Que diretrizes tecnológicas e gerenciais implementar para a redução dos impactos? As questões sociais e econômicas devem ser pensadas neste mesmo sentido, avaliando-se os impactos negativos, as diretrizes que serão adotadas e as ações que serão implementadas para assegurar as condições de trabalho e a eficiência econômica da obra.
Impactos socioambientais e sustentabilidade passam pelos canteiros de obras
“É possível executar e operar um canteiro de obras mais sustentável e a um baixo custo, causando menos impacto no entorno.” (Daniel Ohnuma)
A construção civil é responsável por grandes impactos socioambientais e, por isso, a sustentabilidade na construção passa necessariamente pelos canteiros de obras das empresas construtoras, que deve ser projetado e construído de forma que leve em consideração o menor impacto possível no terreno, no seu entorno ou vizinhança. Partindo de que é possível executar e operar um canteiro de obras mais sustentável, a um baixo custo, é necessário que as empresas da construção reconheçam os impactos e suas consequências (erosão, sedimentação, enchentes, etc.). Em segundo lugar, é necessário planejar e praticar a gestão. Em terceiro, investir em recursos financeiros e humanos e, por fim, agir com ações de engenharia, implementando boas práticas de obra.
Através de um padrão de sustentabilidade e da implantação de um sistema de avaliação e de monitoramento do desempenho das obras, de modo a direcionar as estratégias e ações de engenharia das empresas construtoras para esse fim, pode-se atender a vários aspectos da sustentabilidade das obras: uso racional da água na obra, uso racional da energia na obra, materiais e compras sustentáveis, gestão de resíduos das obras, controle do ruído das obras, gestão das emissões nas obras (atmosféricas, CO2, materiais particulados), responsabilidade social na obra, comunidade, educação ambiental no canteiro de obras e terreno sustentável.
Benefícios e desafios da certificação LEED de edifícios corporativos: palavra do empreendedor
A dinâmica do mercado de edifícios corporativos tem se alterado, nos últimos anos no Brasil, por conta dos “edifícios verdes”. Locatários, por diretrizes de suas organizações, estão à procura de escritórios ecologicamente corretos, que ofereçam instalações com maior nível de eficiência energética e conforto, menores custos de operação e que sirvam como uma forma de demonstração dos valores e princípios sustentáveis da organização, tanto para seus colaboradores quanto para o mercado em geral. Percebendo essa tendência, muitos empreendedores brasileiros começaram a desenvolver seus novos edifícios para buscar a certificação LEED.
Para o locador e investidor há várias vantagens neste investimento: diferencial competitivo, redução de riscos de performance, maior atratividade para locatários, maior liquidez do ativo, maior aluguel (prêmio de até 6% para edifícios certificados), reposicionamento do ativo, valorização do ativo, maior retorno do investimento. Para o locatário e ocupante, os benefícios principais são ter funcionários mais satisfeitos, ambiente de trabalho mais saudável, retenção de pessoas, maior produtividade, redução do absenteísmo, melhor imagem corporativa, aderência às próprias políticas empresariais de sustentabilidade, menores custos operacionais, menor custo condominial, menor custo de energia em área privativa. Já para a sociedade como um todo, há menor impacto possível no meio ambiente no que diz respeito à construção, reforma e operação do empreendimento.
Alguns desafios, no entanto, ainda estão presentes no mercado brasileiro para poder avançar com mais vigor em projetos certificados: viabilidade econômica, prática local (aluguel triple net), investimentos geralmente são do proprietário, benefícios imediatos geralmente são do locatário, dificuldade de implementar paid-from-savings approach, aumento de aluguel não é imediato (consequentemente, é mais difícil calcular o NPV e o ROI), falta de incentivos fiscais.
Nada que impeça a pesquisa de possibilidades de certificação de um novo edifício (Certificação LEED-NC New Construction), ou de certificação de um edifício antigo, que pode focar a gestão da operação e manutenção predial (Certificação LEED-EB Existing Building – Operation & Maintenance) ou a realização de retrofits verdes (Certificação LEED-NC New Construction & Major Renovations). É certo que a demanda por lajes green building tem crescido no Brasil, pois estima-se hoje mais de 200 edifícios novos corporativos sendo projetados e construídos no país visando esta certificação.
Marcelo Faria Scarabotolo (Diretor da São Carlos Empreendimentos e Participações S.A.), Francisco Ferreira Cardoso (Professor da Escola Politécnica da USP), Daniel Ohnuma (Gerente de Construção Sustentável do CTE) e Roberto de Souza abordaram a sustentabilidade em obras e na operação de empreendimentos, apresentando práticas e estratégias adotadas nos canteiros de obras e nos empreendimentos
Responsabilidade ambiental CTE
O CTE providenciou a Neutralização da Emissão de Gases de Efeito Estufa desse evento. Os cálculos foram feitos pelo INSTITUTO TOTUM e o plantio das árvores será efetuado pela SOS Mata Atlântica, que provê o plantio e o desenvolvimento seguro da árvore, efetivando a real compensação das emissões, por acompanhamento e registros periódicos até os cinco anos de desenvolvimento.
Total de emissões deste evento (tCO2e) = 11,99
Número de árvores necessário à neutralização = 49
Roberto de Souza, Diretor Presidente do CTE, destacou a importância do debate e da reflexão sobre alguns aspetos importantes da sustentabilidade no mercado imobiliário e no setor da construção, que vem assumindo práticas sustentáveis especialmente em empreendimentos, projetos, materiais e obras. Mas é necessário ir além, principalmente porque a sustentabilidade desponta como tendência no mundo para um novo modelo de desenvolvimento econômico, para uma economia verde, inclusiva e responsável. Em um momento de crescimento econômico e de expansão do mercado brasileiro, o Encontro, ao trazer também profissionais e experiências de outros países, amplia a discussão, as possibilidades e oportunidades para as empresas assumirem práticas de sustentabilidade no setor da construção.
O Encontro reuniu 245 profissionais da construção de oito estados e 24 cidades brasileiras
VEJA AS PRINCIPAIS QUESTÕES APRESENTADAS E DEBATIDAS NO ENCONTRO
Cenário básico da economia brasileira é positivo
“Falta ao Brasil um plano nacional estratégico de desenvolvimento. Embora o cenário na construção, principalmente em SP e RJ, seja positivo até 2016, será necessário desenvolver novos modelos no mercado imobiliário para dar conta de toda a demanda.” (Amaryllis Romano)
O cenário básico da economia brasileira, mesmo com ameaças recentes de aumento de inflação, é positivo. A projeção é que a taxa de desemprego se situe em 5% até 2014, com a perspectiva de renda e de massa salarial continuar em expansão. Em 2010, o PIB cresceu 7,5% e a projeção para 2011, já com desaceleração, é de 3,9%, devendo ainda apresentar crescimento abaixo do potencial em 2012, para que a inflação convirja à meta, e melhore sua trajetória em 2013 e 2014. Embora a indústria esteja em sua máxima capacidade instalada na produção, devido à demanda doméstica, poderá ter fôlego pela maturação dos investimentos.
O cenário econômico do País e a evolução estimada para massa de rendimentos e para o número de novas famílias desenham um robusto cenário para a construção imobiliária. O crescimento da Classe C, que comporta o maior número de famílias, vai permitir a sustentação dos investimentos em habitação. Simultaneamente a necessidade de expansão da capacidade produtiva, bem como do setor de serviços, também contribuem como condicionantes positivas para o desempenho do setor.
O segmento de infraestrutura, a despeito de necessidades prementes para atendimento tanto da demanda doméstica, quanto daquelas relativas aos megaeventos esportivos que acontecerão até 2016, tem maior grau de incerteza em função de não haver algumas relevantes definições, especialmente quanto a modelos de financiamentos. De toda forma, a expectativa é bastante positiva para o setor da construção que deve, após o crescimento de quase 12% em 2010 é de que o desempenho fique próximo a 5,0% ao ano.
Crescimento econômico estruturado para o bem-estar da população
“Se não for bom negócio salvar o planeta, não salvaremos o planeta. Precisamos então tornar a sustentabilidade um bom negócio.” (Fabio Feldman)
O diagnóstico do nosso planeta não é nada animador e todos os grupos, organizações e comissões, que atualmente se empenham para discutir soluções ambientais para a Terra, têm sugerido uma agenda das questões mais graves para todos os segmentos produtivos. O aquecimento global é o tema mais estratégico hoje: admite-se aumento de 2°C da temperatura da Terra até o final deste século e é necessária uma redução de 50 a 80% do feito do gás estufa para não aumentar ainda mais o aquecimento. E o que tem a construção a ver com tudo isso?
O setor da construção deve inserir em sua agenda a redução das emissões e de gás de efeito estuda, fundamental para o alinhamento à agenda ambiental mundial. Ao contrário do que se imagina, em uma obra típica predial, as emissões de carbono durante a construção são pequenas, na ordem de 3 a 4%, sendo que o grosso das emissões acontecem antes da construção (na produção e fornecimento de materiais, por exemplo) e a partir da entrega das chaves aos usuários. Por isso, é necessário pensar integralmente na cadeia produtiva da construção, desde o projeto, novos materiais, construção, uso e operação, para poder medir realmente as emissões e pensar nas soluções. O setor da construção terá que se adaptar às tendências atuais quanto à sustentabilidade e às emissões e implantar uma política de gestão de emissões que contenha algumas estratégias essenciais, como análise do fornecedor (se tem práticas sustentáveis, possui inventário de emissões, se utiliza madeira certificada), eficiência energética, gestão de resíduos, etc.
Por uma economia inclusiva, verde e responsável
“O Brasil tem potencial para ser uma liderança na nova economia inclusiva, verde e responsável.” (Camila Valverde Santana)
Aos poucos, percebe-se uma crescente absorção do conceito de economia verde, que vai além do conceito de economia de baixo carbono, e absorve também os requisitos éticos e sociais de uma sociedade sustentável. Muitas iniciativas dispersas e fragmentadas que vemos hoje presentes na sociedade e nas empresas poderiam ser centralizadas por um projeto nacional de desenvolvimento sustentável.
A ‘Plataforma por uma Economia Inclusiva, Verde e Responsável’, elaborada pelo Instituto Ethos e seus parceiros, pretende estimular as empresas e o país a promover a transição para uma “Nova Economia”. Desta plataforma, fazem parte algumas referências básicas para o desenvolvimento de práticas e atividades. Quanto ao aspecto da economia inclusiva: participação da base da pirâmide na produção e consumo; erradicação da pobreza; equidade o acesso à renda, serviços básicos, bens e direitos; melhoria da qualidade de vida no conjunto da sociedade. Quanto ao aspecto da economia verde: alto nível de ecoeficiência; uso sustentável da biodiversidade; recuperação e conservação dos ecossistemas; baixo nível de emissões; uso eficiente da energia e forte predominância de fontes limpas e renováveis. Quando se trata de economia responsável: relações mercantis com alto padrão ético; alto nível de integridade e transparência; existência de mecanismos de combate à corrupção; respeito dos diferentes públicos.
Cabe às empresas do setor da construção analisar e aderir aos tópicos desta plataforma, traduzindo-os em ações e práticas que possam dar conta de soluções aos impactos e problemas dos quais o setor é responsável.
Amaryllis Romano (Economista da Tendências Consultoria Integrada), Camila Valverde Santana (Diretora de Sustentabilidade do Walmart), Fabio Feldman (Consultor Ambiental, Conselheiro do CBCS – Conselho Brasileiro de Construção Sustentável) e Roberto de Souza, Diretor Presidente do CTE, discutiram a sustentabilidade na indústria imobiliária e na construção civil e os desafios econômicos, ambientais e sociais que o setor tem pela frente
Certificação LEED ND: os critérios podem ser adaptados à realidade brasileira
“É necessário criar pacotes alternativos para o Brasil, que levem em consideração características de projetos regionais e, ao mesmo tempo, mantenham critérios internacionais de sustentabilidade.” (Sophie Lambert)
As empresas líderes de mercado estão sempre buscando se diferenciar e atender, de forma antecipada, as demandas de mercado. Existem vários tipos de conceitos e sistemas de certificação para um empreendimento sustentável hoje, mas, independente do sistema adotado, um empreendimento sustentável deve levar em consideração: a sustentabilidade do espaço (redução dos impactos da implantação do edifício no entorno), sustentabilidade dos materiais (utilização de materiais que causam menos impacto no meio ambiente), a eficiência energética (redução da demanda de energia e impactos ambientais causados pela criação de novas usinas hidrelétricas ou de outro tipo), qualidade ambiental interna (melhoria da qualidade do ambiente interno para o bem-estar dos usuários) e racionalização do uso de água (adoção de sistemas que reduzam o consumo de água potável no edifício).
O ideal seria que os empreendimentos sustentáveis estivessem inseridos em áreas urbanas que atendessem também aos requisitos de sustentabilidade da urbanização, ou seja, que estas áreas urbanas fossem também requalificadas ou concebidas com diretrizes sustentáveis. Assim, os edifícios ali inseridos poderiam almejar maior grau de sustentabilidade. Esta possibilidade de certificação de novas urbanizações ou revitalização de áreas urbanas surge com o LEED ND - Neighborhood Development, do USGBC, que contempla exigências em relação à conectividade urbana, acesso a transporte coletivo de massa, urbanização de uso misto, desenho urbano na escala do pedestre (trabalhar, estudar, morar e divertir-se preferencialmente a pé), além de quesitos que mostrem diferencial em relação à qualidade e conforto do ambiente urbanizado.
O caminho para o desenvolvimento urbano sustentável deve ser inserido na linha do tempo e pensado como um processo, e depende não apenas dos empreendedores, mas da atuação e vontade do poder público. Juntos devem caminhar para uma performance sustentável dos bairros e da ocupação urbana.
Uma nova metodologia para o desenvolvimento de projetos pressupõe o conhecimento sustentável
“Precisamos ampliar o conhecimento holístico sobre a nossa existência e a nossa permanência no planeta Terra, como o conhecemos, e entender que, como arquitetos, devemos ser provocadores e catalisadores de todos os pensamentos e movimentos pró-existência, representando-os na construção.” (Ruy Rezende)
A arquitetura sustentável, ao contemplar também a nova visão de mundo, que leva em consideração a interação entre as áreas econômicas, ambientais e sociais, muda sua metodologia de trabalho, já que há de se considerar muita pesquisa e soluções para os projetos que visam, por exemplo, as certificações dos empreendimentos. O desenvolvimento de uma arquitetura sustentável traz uma metodologia do pensamento voltada para a construção, na verdade um pensamento holístico, que envolve a construção, arquitetura, programas, condições socioambientais, consultorias, engenharias, pré-construção, conhecimento e pesquisas. Em se tratando da metodologia geral aplicada à sustentabilidade, são grandes os desafios para o desenvolvimento de projetos, pois é necessário desenvolver e aprimorar o conhecimento sustentável, aprofundando as questões culturais e de responsabilidade socioambiental, pesquisando e divulgando, entendendo o “status-quo“, saber fazer uso dos resultados apurados e das normas e referências, além de, ao final, aplicar os conceitos de forma adequada no projeto e na obra. Ou seja, ao assumir novos paradigmas, é necessário criatividade e inovação.
Quanto à metodologia de desenvolvimento de projetos sustentáveis, deverão ser considerados os seguintes quesitos: inserção urbana; terreno, implantação, áreas verdes, gestão da permeabilidade; orientação e controle da insolação, iluminação natural e artificial, ventos; conforto acústico, térmico e qualidade do ar; gestão das águas; gestão da eficiência energética; gestão do uso de materiais e resíduos; energia renovável; responsabilidade socioambiental.
Projetos mais sustentáveis e eficientes
“A sustentabilidade nos leva a fazer projetos mais eficientes e duráveis.” (Flavia Marcondes)
De forma geral, a sustentabilidade sempre fez parte do processo normal de um bom projeto de arquitetura, pois deveria levar em consideração a orientação do prédio, a otimização de eficiência energética, o conforto ambiental, a otimização de custos e a manutenção do edifício (qualidade e durabilidade dos materiais). Com o advento das certificações de empreendimentos, temos uma vetorização de mais elementos na mesma direção, qual seja, a da sustentabilidade. Hoje, são consideradas novas estratégias nos projetos para atender aos requisitos de uma certificação, como reuso de água, utilização de dispositivos economizadores de água e de consumo de energia, previsão de áreas verdes, uso de materiais de origem renovável ou reciclado, construção de bicicletários e vestiários, telhados ecológicos ou pinturas reflexivas nas coberturas, previsão de vagas preferenciais para veículos de baixas emissões, entre outros.
Coincidentemente, as equações de sustentabilidade convergem com as equações econômicas. Algumas soluções de projeto podem ter custo inicial mais elevado do que as soluções convencionais, mas a médio e longo prazo esse investimento inicial se paga e, deste ponto em diante, a curva é positiva. Os edifícios tornam-se mais duráveis, com menor custo de manutenção, menor agressão ao meio ambiente e à natureza.
Flavia Marcondes (Coordenadora de Projetos do escritório Aflalo&Gasperini Arquitetos), Sophie Lambert (Diretora para LEED ND do USGBC), Ruy Rezende (Diretor do escritório Ruy Rezende Arquitetura) e Roberto de Souza refletiram sobre a sustentabilidade no desenvolvimento urbano e de empreendimentos, abordando vários aspectos do projeto de empreendimentos e bairros sustentáveis
Renovação urbana em Paris: construir a cidade sobre a cidade de forma sustentável
“Para se alcançar o desenvolvimento urbano sustentável tem que haver muita vontade política e todas as diretrizes e regras têm que estar muito claras para toda a cadeia envolvida, pois a hierarquia é a do espaço público” (Gilles de Mont Marin)
Diferentemente da realidade brasileira, a legislação francesa concede muitos poderes às coletividades locais, especialmente em termos de urbanismo, e trata da coerência das políticas de urbanismo e de deslocamentos numa perspectiva de desenvolvimento sustentável.
Quanto à renovação urbana de Paris, todas as operações são discutidas, decididas e aprovadas pelo Prefeito e a Câmara Municipal: as grandes orientações urbanas e arquitetônicas do projeto, a programação geral das funções, o quadro jurídico e a ferramenta operacional implantada para dirigir sua política, etc. Cada projeto deve assim se situar no âmbito mais geral do Plano Local de Urbanismo e, para implementar a política “bairros sustentáveis” desejada pela Prefeitura, a coletividade dispõe de vários operadores como a SEMAPA (Sociedade de Economia Mista de Desenvolvimento Urbano de Paris), que tem a missão de desenvolvedor: adquirir os terrenos; efetuar os estudos urbanos, paisagísticos, arquitetônicos; realizar as obras de infraestruturas; vender os terrenos; conceder os direitos de construir; encarregar-se da gestão financeira da operação; inserir os projetos na política de desenvolvimento sustentável municipal; cuidar da informação para os habitantes e dos debates nos bairros durante a fase de realização dos projetos, etc.
Existem ferramentas e referenciais disponíveis, que devem ser atendidos ao se desenhar um projeto: Plano Clima de Paris 2007 (com dimensões sociais, ambientais e econômicas), Referenciais HQE para o desenvolvimento urbano e certificações HQE para edificações. A implementação dos princípios do desenvolvimento sustentável e da alta qualidade ambiental no projeto de desenvolvimento urbano sustentável comporta as fases de desenho, realização e contratação.
Todo o conceito de planejamento urbano sustentável, desde a legislação, os referenciais e as diretrizes, até a gestão de projetos, passam por uma cadeia de interação público-privada, onde a vontade política dos governantes e a responsabilidade dos realizadores são fundamentais. Temos que aprender muito com o modelo francês.
Como tratar o desenvolvimento urbano sustentável no Brasil?
“Não é necessário fornecer todas as respostas de imediato para resolvermos os problemas de nossas cidades e de nossos bairros e ainda torná-los mais sustentáveis, mas é preciso criar condições para que todas as questões sejam respondidas.” (Ana Rocha Melhado)
Os grandes problemas que afetam as cidades brasileiras estão associados diretamente ao seu porte, sendo o trânsito, a poluição do ar, a violência urbana, as favelas, os cortiços, as enchentes, a falta de saneamento básico as maléficas consequências do péssimo planejamento urbano. Em vista disso, qualquer ação urbana e arquitetônica não deve jamais ignorar o contexto que a rodeia. Não existem estilos e modelos sustentáveis que resolvam todos os nossos problemas, mas um contexto que deve ser levado em conta, que inclui a cultura local, o terreno, o programa arquitetural, técnico, ambiental e os anseios dos clientes e usuários. As tecnologias a serem utilizadas nas construções devem funcionar como aliadas na construção do produto e no atendimento aos níveis requeridos de desempenho.
Para darmos conta dos graves problemas urbanos, é necessário desenvolver um plano de ação, que envolva o setor publico e privado, no sentido de desenvolver as seguintes possibilidades: reduzir o consumo de energia e a produção de CO2; promover adequada gestão dos resíduos e minimizar seu impacto ambiental; prover alta mobilidade com reduzido impacto ambiental; reduzir o impacto ambiental; prover o uso eficiente da água; proteger e recuperar o meio ambiente; valorizar o patrimônio material e imaterial; melhorar a qualidade de vida dos habitantes; integrar as edificações com o seu entorno, reduzir o consumo de recursos e favorecer o conforto ambiental e a saúde dos usuários; integrar e recuperar comunidades locais e globais.
Pensando no caos urbano brasileiro: somos todos responsáveis
“É fundamental pensar no dia de amanhã, principalmente porque as atividades da construção demoram alguns anos entre o pensar, projetar e executar.” (Alex Abiko)
Dos 5.567 municípios brasileiros, apenas 273 (0,05%) têm mais de 100 mil habitantes e 3.921 (70%) têm menos de 20 mil habitantes. Essa minoria, no entanto, a cada dia espanta pelas tragédias, caos e inconvenientes causados a seus habitantes. Para resolver os graves problemas urbanos e crescer com planejamento e de forma sustentável, temos que trabalhar em três escalas: do município, da metrópole (que envolve um conjunto de municípios) e na escala do bairro (do quarteirão).
Na esfera do município, é preciso considerar hoje os aspectos políticos (os governantes terão que enfrentar os problemas e encontrar soluções, e a sociedade tem que cobrar e participar desse processo) e os aspectos técnicos (temos número insuficiente de profissionais e necessidade de capacitação técnica, com uma gestão de conhecimento e adequação à nossa realidade de país emergente e continental). Quanto à escala da metrópole, o maior desafio está na gestão ambiental metropolitana, que deve pensar os municípios de forma mais abrangente e interligada. Já na escala do bairro, é necessário obedecer ao plano diretor, sendo que o poder público e iniciativa privada devem trabalhar juntos.
A parceria público-privada é fundamental para enfrentar o desafio do crescimento urbano, pois as cidades são fenômenos complexos e pensar a sustentabilidade no desenvolvimento urbano é muito mais do que pensar no “verde”. Temos ainda pouca criatividade para pensar nossas cidades, precisamos desenvolver critérios de desempenho e diretrizes claras, que deverão nortear todo o planejamento.
Gilles de Mont Marin (Diretor Geral da SEMAPA – Société d’Economie Mixte d’Aménagement de Paris), Ana Rocha Melhado (Diretora da PROACTIVE), Alex Abiko (Professor da Escola Politécnica da USP) e Roberto de Souza trataram da sustentabilidade no planejamento urbano, bairros e loteamentos, abordando a renovação de espaços urbanos e os desafios para integrar a sustentabilidade ao desenvolvimento das cidades
Desafios para uma produção mais limpa
“São necessárias soluções tecnológicas em canteiros de obras visando tanto a sustentabilidade ambiental como a melhoria das condições de trabalho.” (Francisco Ferreira Cardoso)
Hoje a construção se depara com três escalas de desafios para poder promover uma produção mais limpa em seus canteiros e obras: a ambiental (implementar medidas que envolvem todos os impactos ambientais dos canteiros de obras), a social (implementar medidas, levando em conta nossa composição mista na mão de obra, voltadas aos trabalhadores próprios e aos subcontratados) e a econômica (assegurar a eficiência econômica da obra e combater a ilegalidade na cadeia produtiva).
Quanto às questões ambientais, sendo a construção fonte de diversos impactos, é necessário criar um sistema para verificação e implementação de medidas: que atividades do canteiro de obras geram impactos ambientais negativos? Quais elementos dessas atividades afetam o meio ambiente? Quais são tais impactos? Quais são os prioritários? Que diretrizes tecnológicas e gerenciais implementar para a redução dos impactos? As questões sociais e econômicas devem ser pensadas neste mesmo sentido, avaliando-se os impactos negativos, as diretrizes que serão adotadas e as ações que serão implementadas para assegurar as condições de trabalho e a eficiência econômica da obra.
Impactos socioambientais e sustentabilidade passam pelos canteiros de obras
“É possível executar e operar um canteiro de obras mais sustentável e a um baixo custo, causando menos impacto no entorno.” (Daniel Ohnuma)
A construção civil é responsável por grandes impactos socioambientais e, por isso, a sustentabilidade na construção passa necessariamente pelos canteiros de obras das empresas construtoras, que deve ser projetado e construído de forma que leve em consideração o menor impacto possível no terreno, no seu entorno ou vizinhança. Partindo de que é possível executar e operar um canteiro de obras mais sustentável, a um baixo custo, é necessário que as empresas da construção reconheçam os impactos e suas consequências (erosão, sedimentação, enchentes, etc.). Em segundo lugar, é necessário planejar e praticar a gestão. Em terceiro, investir em recursos financeiros e humanos e, por fim, agir com ações de engenharia, implementando boas práticas de obra.
Através de um padrão de sustentabilidade e da implantação de um sistema de avaliação e de monitoramento do desempenho das obras, de modo a direcionar as estratégias e ações de engenharia das empresas construtoras para esse fim, pode-se atender a vários aspectos da sustentabilidade das obras: uso racional da água na obra, uso racional da energia na obra, materiais e compras sustentáveis, gestão de resíduos das obras, controle do ruído das obras, gestão das emissões nas obras (atmosféricas, CO2, materiais particulados), responsabilidade social na obra, comunidade, educação ambiental no canteiro de obras e terreno sustentável.
Benefícios e desafios da certificação LEED de edifícios corporativos: palavra do empreendedor
A dinâmica do mercado de edifícios corporativos tem se alterado, nos últimos anos no Brasil, por conta dos “edifícios verdes”. Locatários, por diretrizes de suas organizações, estão à procura de escritórios ecologicamente corretos, que ofereçam instalações com maior nível de eficiência energética e conforto, menores custos de operação e que sirvam como uma forma de demonstração dos valores e princípios sustentáveis da organização, tanto para seus colaboradores quanto para o mercado em geral. Percebendo essa tendência, muitos empreendedores brasileiros começaram a desenvolver seus novos edifícios para buscar a certificação LEED.
Para o locador e investidor há várias vantagens neste investimento: diferencial competitivo, redução de riscos de performance, maior atratividade para locatários, maior liquidez do ativo, maior aluguel (prêmio de até 6% para edifícios certificados), reposicionamento do ativo, valorização do ativo, maior retorno do investimento. Para o locatário e ocupante, os benefícios principais são ter funcionários mais satisfeitos, ambiente de trabalho mais saudável, retenção de pessoas, maior produtividade, redução do absenteísmo, melhor imagem corporativa, aderência às próprias políticas empresariais de sustentabilidade, menores custos operacionais, menor custo condominial, menor custo de energia em área privativa. Já para a sociedade como um todo, há menor impacto possível no meio ambiente no que diz respeito à construção, reforma e operação do empreendimento.
Alguns desafios, no entanto, ainda estão presentes no mercado brasileiro para poder avançar com mais vigor em projetos certificados: viabilidade econômica, prática local (aluguel triple net), investimentos geralmente são do proprietário, benefícios imediatos geralmente são do locatário, dificuldade de implementar paid-from-savings approach, aumento de aluguel não é imediato (consequentemente, é mais difícil calcular o NPV e o ROI), falta de incentivos fiscais.
Nada que impeça a pesquisa de possibilidades de certificação de um novo edifício (Certificação LEED-NC New Construction), ou de certificação de um edifício antigo, que pode focar a gestão da operação e manutenção predial (Certificação LEED-EB Existing Building – Operation & Maintenance) ou a realização de retrofits verdes (Certificação LEED-NC New Construction & Major Renovations). É certo que a demanda por lajes green building tem crescido no Brasil, pois estima-se hoje mais de 200 edifícios novos corporativos sendo projetados e construídos no país visando esta certificação.
Marcelo Faria Scarabotolo (Diretor da São Carlos Empreendimentos e Participações S.A.), Francisco Ferreira Cardoso (Professor da Escola Politécnica da USP), Daniel Ohnuma (Gerente de Construção Sustentável do CTE) e Roberto de Souza abordaram a sustentabilidade em obras e na operação de empreendimentos, apresentando práticas e estratégias adotadas nos canteiros de obras e nos empreendimentos
Responsabilidade ambiental CTE
O CTE providenciou a Neutralização da Emissão de Gases de Efeito Estufa desse evento. Os cálculos foram feitos pelo INSTITUTO TOTUM e o plantio das árvores será efetuado pela SOS Mata Atlântica, que provê o plantio e o desenvolvimento seguro da árvore, efetivando a real compensação das emissões, por acompanhamento e registros periódicos até os cinco anos de desenvolvimento.
Total de emissões deste evento (tCO2e) = 11,99
Número de árvores necessário à neutralização = 49
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