quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O Brasil possui uma cultura de ''obra nova''? Quando recuperar o patrimônio construído e quando demolir para edificar novamente?

No dia 4 de maio de 2011, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, apresentava o projeto de revitalização urbana do Parque Dom Pedro II, na região central da cidade. Criado pela Fupam, Fundação para a Pesquisa em Arquitetura e Ambiente, o projeto prevê a construção de dois edifícios em uma área onde ficavam os prédios Mercúrio e São Vito (o treme-treme) que vieram abaixo no mesmo ano depois de um embate na Justiça entre a Prefeitura e a Defensoria Pública de São Paulo, que queria que os antigos edifícios fossem reformados e usados como moradias populares. Motivo de orgulho para os paulistanos quando foi inaugurada, em 1962, a antiga estação rodoviária de São Paulo e todo o seu quarteirão também foram demolidos em 2010 para o futuro Teatro da Dança, projeto dos suíços Herzog & de Meuron. Esses e outros casos atestam que, no Brasil, impera uma cultura de ''obra nova''? Preferimos construir novas edificações a recuperar o patrimônio construído? Como avaliar as alternativas?

Manoela Rossinetti Rufinoni, arquiteta, urbanista, professora da Universidade Federal de São Paulo:
A predominância da cultura de ''obra nova'' tem condenado ao desaparecimento não somente arquiteturas exemplares, mas sobretudo paisagens e espaços construídos de inegável interesse cultural; parcelas urbanas não tuteladas como patrimônio que compõem documentos de história e de arte que precisamos compreender e valorizar, como as arquiteturas não-eruditas (galpões industriais e áreas portuárias, por exemplo). Um dos desafios é entender a cidade como um artefato vivo e dinâmico, um acervo documental com o qual as novas obras devem dialogar, inserindo-se criteriosamente como um novo estrato histórico ou propondo cuidadosas intervenções de conservação e restauro.

Elisabete França, arquiteta e superintendente de Habitação Popular da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, Sehab:
Construções novas e recuperação do patrimônio construído não se contrapõem. Obras referenciais, que marcam a produção da cultura arquitetônica brasileira, são preservadas como parte da história. E hoje temos todas as condições técnicas e materiais para recuperar o patrimônio arquitetônico significativo, adaptando-o às necessidades contemporâneas, tanto no caso da fruição do monumento que guarda sua função original, quanto daquele adaptado para outra função. Por outro lado, a população urbana no Brasil cresceu muito em apenas um século, o que demanda a produção de milhões de novas moradias, de equipamentos públicos, comércio e serviços, além de infraestrutura. A criatividade dos arquitetos brasileiros tem se traduzido em soluções para vencer o desafio de conciliar o patrimônio construído com a nova produção.

Alessandro Vedrossi, diretor-executivo da Unidade de Negócios São Paulo da Brookfield Incorporações:
É fundamental buscar o equilíbrio entre o antigo e o moderno. Em vários de nossos projetos, estamos recuperando o patrimônio histórico existente, buscando, inclusive, reverter sua utilização para a sociedade, como é o caso da praça Pamplona, em São Paulo, onde agregamos novas edificações de arquitetura moderna em harmonia com o entorno. Mas nem sempre é possível recuperar a edificação existente, principalmente por razões técnicas, como é o caso do hotel Ca'd'Oro, onde decidimos preservar seu significado cultural por meio de um projeto mixed-use, com unidades residenciais e comerciais, usando a reedição do hotel e restaurante Ca'd'oro como âncora do novo projeto. Acreditamos que, com isso, estamos preservando a memória da cidade e, ao mesmo tempo, contribuindo de forma significativa para a revitalização do Centro de São Paulo.

Romeu Chap Chap, presidente do Conselho Consultivo do Secovi-SP e da Romeu Chap Chap Desenvolvimento e Consultoria Imobiliária:
Nem sempre há terrenos disponíveis para novos empreendimentos nas cidades. O caso da capital paulista é emblemático, tendo em vista que o último Plano Diretor e a Lei de Zoneamento restringiram drasticamente os coeficientes de uso e ocupação do solo. Para fazer frente à procura por habitações, é preciso fabricar terrenos, o que só é possível com a demolição de casas ou edifícios que, desgastados pelo tempo, ou ultrapassados em termos de sistemas construtivos, não admitem retrofit. Mas é claro que o bom senso deve sempre imperar. No Centro de São Paulo há casos de edifícios que puderam ser recuperados (ou retrofitados) e transformados em condomínios residenciais. Porém, isso nem sempre é possível, pois as atuais legislações são restritivas e impedem o aproveitamento dessas edificações. Para que o setor imobiliário possa intensificar a recuperação de edifícios deteriorados, construídos há mais de 40 ou 50 anos, é indispensável uma legislação específica para esses casos, bem como uma eficiente política pública de incentivos.

Walter Pires, arquiteto e diretor do DPH-Departamento do Patrimônio Histórico, da Prefeitura de São Paulo:
A formação do território brasileiro - espaço colonial extenso, ocupado por imigrações sucessivas, com crescimento populacional expressivo - induziu à busca do "novo" como valor social e material. A feliz metáfora de Benedito Lima de Toledo, em relação a São Paulo, pode ser estendida: muitas de nossas cidades e espaços tornam-se palimpsestos. Nas últimas décadas, a preservação do patrimônio arquitetônico passou a ser um valor cultural defendido por diversos grupos sociais, postura que exige de quem projeta a integração de novas edificações com esses agenciamentos históricos. E, neste momento, o adensamento urbano e o esforço humano investidos nesses espaços no passado, tornam esse modo de projetar uma necessidade social e econômica relevante. Para cuidarmos de nossas cidades como espaços de convivência criativa, não apenas de substituição e sobreposição destrutivas, devemos aprofundar o conhecimento desse patrimônio na formação de profissionais envolvidos com projeto e planejamento; estimular essa visão no planejamento territorial e urbano; incentivar a preservação e reciclagem desses bens de valor arquitetônico.


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