No dia 4 de maio de 2011, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, apresentava
o projeto de revitalização urbana do Parque Dom Pedro II, na região central da
cidade. Criado pela Fupam, Fundação para a Pesquisa em Arquitetura e Ambiente, o
projeto prevê a construção de dois edifícios em uma área onde ficavam os prédios
Mercúrio e São Vito (o treme-treme) que vieram abaixo no mesmo ano depois de um
embate na Justiça entre a Prefeitura e a Defensoria Pública de São Paulo, que
queria que os antigos edifícios fossem reformados e usados como moradias
populares. Motivo de orgulho para os paulistanos quando foi inaugurada, em 1962,
a antiga estação rodoviária de São Paulo e todo o seu quarteirão também foram
demolidos em 2010 para o futuro Teatro da Dança, projeto dos suíços Herzog &
de Meuron. Esses e outros casos atestam que, no Brasil, impera uma cultura de
''obra nova''? Preferimos construir novas edificações a recuperar o patrimônio
construído? Como avaliar as alternativas?
Manoela Rossinetti Rufinoni, arquiteta, urbanista, professora da Universidade
Federal de São Paulo:
A predominância da cultura de ''obra nova'' tem condenado ao desaparecimento não
somente arquiteturas exemplares, mas sobretudo paisagens e espaços construídos
de inegável interesse cultural; parcelas urbanas não tuteladas como patrimônio
que compõem documentos de história e de arte que precisamos compreender e
valorizar, como as arquiteturas não-eruditas (galpões industriais e áreas
portuárias, por exemplo). Um dos desafios é entender a cidade como um artefato
vivo e dinâmico, um acervo documental com o qual as novas obras devem dialogar,
inserindo-se criteriosamente como um novo estrato histórico ou propondo
cuidadosas intervenções de conservação e restauro.
Elisabete França, arquiteta e superintendente de Habitação Popular da Secretaria
Municipal de Habitação de São Paulo, Sehab:
Construções novas e recuperação do patrimônio construído não se contrapõem.
Obras referenciais, que marcam a produção da cultura arquitetônica brasileira,
são preservadas como parte da história. E hoje temos todas as condições técnicas
e materiais para recuperar o patrimônio arquitetônico significativo, adaptando-o
às necessidades contemporâneas, tanto no caso da fruição do monumento que guarda
sua função original, quanto daquele adaptado para outra função. Por outro lado,
a população urbana no Brasil cresceu muito em apenas um século, o que demanda a
produção de milhões de novas moradias, de equipamentos públicos, comércio e
serviços, além de infraestrutura. A criatividade dos arquitetos brasileiros tem
se traduzido em soluções para vencer o desafio de conciliar o patrimônio
construído com a nova produção.
Alessandro Vedrossi, diretor-executivo da Unidade de Negócios São Paulo da
Brookfield Incorporações:
É fundamental buscar o equilíbrio entre o antigo e o moderno. Em vários de
nossos projetos, estamos recuperando o patrimônio histórico existente, buscando,
inclusive, reverter sua utilização para a sociedade, como é o caso da praça
Pamplona, em São Paulo, onde agregamos novas edificações de arquitetura moderna
em harmonia com o entorno. Mas nem sempre é possível recuperar a edificação
existente, principalmente por razões técnicas, como é o caso do hotel Ca'd'Oro,
onde decidimos preservar seu significado cultural por meio de um projeto
mixed-use, com unidades residenciais e comerciais, usando a reedição do hotel e
restaurante Ca'd'oro como âncora do novo projeto. Acreditamos que, com isso,
estamos preservando a memória da cidade e, ao mesmo tempo, contribuindo de forma
significativa para a revitalização do Centro de São Paulo.
Romeu Chap Chap, presidente do Conselho Consultivo do Secovi-SP e da Romeu Chap
Chap Desenvolvimento e Consultoria Imobiliária:
Nem sempre há terrenos disponíveis para novos empreendimentos nas cidades. O
caso da capital paulista é emblemático, tendo em vista que o último Plano
Diretor e a Lei de Zoneamento restringiram drasticamente os coeficientes de uso
e ocupação do solo. Para fazer frente à procura por habitações, é preciso
fabricar terrenos, o que só é possível com a demolição de casas ou edifícios
que, desgastados pelo tempo, ou ultrapassados em termos de sistemas
construtivos, não admitem retrofit. Mas é claro que o bom senso deve sempre
imperar. No Centro de São Paulo há casos de edifícios que puderam ser
recuperados (ou retrofitados) e transformados em condomínios residenciais.
Porém, isso nem sempre é possível, pois as atuais legislações são restritivas e
impedem o aproveitamento dessas edificações. Para que o setor imobiliário possa
intensificar a recuperação de edifícios deteriorados, construídos há mais de 40
ou 50 anos, é indispensável uma legislação específica para esses casos, bem como
uma eficiente política pública de incentivos.
Walter Pires, arquiteto e diretor do DPH-Departamento do Patrimônio Histórico,
da Prefeitura de São Paulo:
A formação do território brasileiro - espaço colonial extenso, ocupado por
imigrações sucessivas, com crescimento populacional expressivo - induziu à busca
do "novo" como valor social e material. A feliz metáfora de Benedito Lima de
Toledo, em relação a São Paulo, pode ser estendida: muitas de nossas cidades e
espaços tornam-se palimpsestos. Nas últimas décadas, a preservação do patrimônio
arquitetônico passou a ser um valor cultural defendido por diversos grupos
sociais, postura que exige de quem projeta a integração de novas edificações com
esses agenciamentos históricos. E, neste momento, o adensamento urbano e o
esforço humano investidos nesses espaços no passado, tornam esse modo de
projetar uma necessidade social e econômica relevante. Para cuidarmos de nossas
cidades como espaços de convivência criativa, não apenas de substituição e
sobreposição destrutivas, devemos aprofundar o conhecimento desse patrimônio na
formação de profissionais envolvidos com projeto e planejamento; estimular essa
visão no planejamento territorial e urbano; incentivar a preservação e
reciclagem desses bens de valor arquitetônico.
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