domingo, 30 de maio de 2010

Tempo em reformas

As universidades usam as férias para obras de expansão e de manutenção, mas o cronograma de reformas avança semestre adentro


Férias cada vez mais curtas preocupam Marcos Ribeiro Campos. Não é porque ele gostaria de descansar mais. Engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, esse mineiro de 53 anos é o responsável pelas obras da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), para onde se transferiu há 25 anos com a missão de construir um setor inteiro - o Campus Taquaral.

O problema é que ele tem cada vez menos tempo hábil para colocar os prédios e as dependências dos quatro campus da Unimep prontos para uma nova rodada escolar. A manutenção é feita no dia-a-dia, mas não há como evitar uma concentração de tarefas no período de recesso escolar. "Fim de ano sempre foi uma correria, mas ultimamente é ainda mais. O período de férias ia do início de dezembro até final de fevereiro. Só que, pouco a pouco, os cursos foram invadindo dezembro."

A equipe de Marcos é formada por três profissionais no Departamento de Engenharia e dez empregados da equipe de manutenção - entre pintores, serventes, pedreiros e encarregados. Todos vão trabalhar a plena carga nessa entressafra, de 15 de dezembro até, estourando, dia 20 de janeiro. A missão, agora, é entregar todos os prédios revisados e em perfeitas condições de operar em 2003. Não é à toa que o engenheiro deixa escapar uma certa aflição: "Tem muitas alterações para fazer, e neste ano o Natal e Ano Novo caem justo no meio da semana." O jeito é pedir ajuda. "Para realizar todo o trabalho de manutenção, pintura, refação de fiação etc., contratamos mão-de-obra para trabalhar sob supervisão da equipe ou empreitamos os serviços para terceiros." Mas a filosofia de resolver as coisas com gente de casa continua predominando. Há até uma marcenaria própria, conta Marcos, que confecciona móveis e objetos de uso interno.

Universidade em expansão

A Unimep tem os campus do Taquaral e Centro, em Piracicaba, e os de Santa Bárbara d'Oeste e Lins. Cada um mantém um administrador com sua equipe própria para trabalhos corriqueiros de manutenção elétrica e hidráulica, além de auxiliares que fazem o dia-a-dia da manutenção. Na condição de gerente do setor de engenharia e manutenção patrimonial, o papel de Marcos é supervisionar tudo.
Além do encurtamento do melhor período para trabalhar mais - quando os estudantes e professores saem de férias -, Marcos explica que outro fator fundamental para a intensificação de suas atividades é a fase de expansão pela qual passa a universidade. Em Santa Bárbara, por exemplo, está sendo entregue para uso no próximo ano letivo o Bloco 15, com 2.360 m2, que abrigará salas de aula e de professores. Além desse bloco novo, está sendo finalizada a Galeria, um local de convívio e prestação de serviços, com previsão de instalação de 21 lojas, praça de alimentação, livraria, banco, farmácia e agência de correios.

Recentemente, foram terminadas obras em Lins, para dar conta da abertura de três novos cursos: Nutrição, Turismo e Direito. Além das salas de aula, foram instalados laboratórios específicos para cada área, empreitada que sempre envolve mais detalhes técnicos e especificações para acomodar equipamentos, em geral bastante caros. "Construímos ainda quatro laboratórios de informática para atender todo o campus de Lins", completa Marcos.

O critério é... atender à demanda

Túlio Araripe, 51 anos, engenheiro civil e assessor administrativo da Unigranrio, de Duque de Caxias, no Estado do Rio, planeja seu trabalho de acordo com o número de inscritos para o vestibular, realizado duas vezes por ano. A conta é simples: para cada aluno, pelo menos 1 m2, explica. "Os padrões de construção são bastante específicos no caso de ambientes de ensino: uma sala para 50 alunos deve ter 7 m por 8 m", diz. Outro cuidado adotado é a segurança e conservação dos equipamentos empregados nos laboratórios.

Para Túlio e sua equipe de cerca de 20 pessoas - que atendem 13.200 alunos -, as férias do meio do ano nem devem mais ser contabilizadas para efeito de esforços concentrados em reforma ou edificação. "São 10, 15 dias, é um período muito curto." Para 2003, os desafios a vencer, enquanto professores e alunos descansam, é construir mais 12 salas de aula, em um anexo. No ano passado, foram entregues 18 novas salas. Sempre com o auxílio de pessoal terceirizado. "Os prazos são estreitos, temos de recorrer a empreiteiros."

Um desses empreiteiros é a Masterfor. Segundo o gerente dessa empresa, Alessandro Gomes Rodrigues, o que há de específico em servir instituições de ensino é a maior restrição para o trabalho. "Não pode ter barulho, é estratégico aproveitar as noites e os fins de semana, porque em dias normais sempre tem aula. A gente precisa fazer um esforço grande e adaptar-se ao ritmo da universidade, pois ela não tem como se adaptar às preferências da construtora."
Em Marília, a Unimar - universidade desde 1989, mas atuando com ensino superior há 30 anos - inaugurou em abril de 2001 seu Hospital Universitário, com 129 leitos, 5 centros cirúrgicos e UTI com 12 leitos, o que somou recursos de 50 milhões de dólares. O pró-reitor, José Roberto Marques de Castro, explica que o campus está em constante manutenção. "Nós não paramos, não é só nas férias que as coisas acontecem." Depois da grande obra do hospital, o desafio agora será pintar os 13 blocos do campus, numa área de 352 alqueires (a Unimar fica encravada numa fazenda experimental). Apenas em pintura, o gasto será de R$ 12 milhões. A mão-de-obra é própria e numerosa: 84 funcionários. "Não diria que manter uma equipe própria é melhor, porque há os encargos, mas a qualidade é inegável e o atendimento é imediato", pondera. No caso do hospital, uma boa parte foi terceirizada por pressões de tempo de execução da obra. Além disso, a parte tecnológica exigiu pessoal qualificado.

Novo campus na capital

Na hora de reformar, a UMC, de Mogi das Cruzes, consulta três ou quatro empreiteiras antes de fechar negócio. "Algumas têm conosco contratos anuais de manutenção", afirma o engenheiro Laudicir Zamai, diretor de infra-estrutura da universidade, que ainda destaca uma inovação no ramo: são os próprios professores e usuários da universidade que fazem as sugestões de mudança. "Alguns dos projetos são realizados por setores da própria escola, professores e alunos propõem desenho, ouvimos os bibliotecários antes de introduzir alguma modificação na biblioteca, por exemplo." O engenheiro conta que, apontadas as principais necessidades ao longo do ano, dá-se início às reformas. "Obras de maior envergadura são realizadas durante os recessos, em julho e no final de ano. Obras de manutenção, como pintura e troca de equipamentos, são feitas no dia-a-dia", explica.
Grande obra a UMC realizou recentemente, com a construção do campus Villa-Lobos, três blocos somando 24.000 m2 de área construída, na zona oeste da capital paulista. Na licitação, entre as três propostas finalistas, foi escolhido o projeto apresentado por uma empresa que não é especialista em construção de escolas, a Par Arquitetura, de São Paulo - a construção foi tocada numa parceria entre a Camargo Correia e a Verticon. O investimento total (da compra do terreno ao acabamento) foi de R$ 29,6 milhões.
A Universidade de Franca (Unifran) também fará ampliações, mas dentro do próprio campus. Será construída a partir de janeiro uma biblioteca central de 6.000 m2 - a um custo de R$ 2 milhões. O término da obra está previsto para julho de 2003. A estratégia de construção da universidade foi "invadir" o estacionamento, adquirir uma área nos fundos do campus e transferir para lá os carros. Mas os projetos de expansão não param por aí. Segundo o pró-reitor acadêmico, prof. José da Silveira Maia, até o final do ano que vem a Unifran inaugura um Centro de Tecnologia e Pesquisa, com 3.000 m2 - mais R$ 2 milhões de investimento. Na Unifran, apenas o orçamento anual para manutenção preventiva - executado por uma equipe interna - é de R$ 800 mil.

Na Universidade Católica de Santos, um campus inteiro será inaugurado em fevereiro do próximo ano, coincidindo com a comemoração de 50 anos de suas origens como faculdades isoladas. "É uma obra de magnitude inédita", comemora a reitora, Maria Helena Lambert. Com 6.200 alunos, a Unisantos concentrará nesse edifício todos os laboratórios, tanto da área de Saúde quanto Engenharia e Tecnologia. Oito anos atrás, a universidade construiu um prédio próprio para a pós-graduação, que abriga 800 estudantes. Desde então, nenhuma grande construção havia sido empreendida.
A responsável pela construção do novo campus em Santos foi a PBR Engenharia, empresa que ao longo dos anos acabou se especializando em obras de reforma ou expansão de escolas e de faculdades. Nesses ambientes de ensino, os princípios adotados pela arquiteta do escritório, Vânia Maria da Silva Joaquim, são o cuidado com a segurança dos alunos e a praticidade da manutenção. "Tudo tem de exigir pouca manutenção, porque esse quesito em geral é complicado, tratando-se de escolas. Pisos e revestimentos têm de ser práticos, utilizando materiais que exijam menos manutenção, como a cerâmica, por exemplo, que não requer pintura periódica - um custo alto nesse tipo de obras", explica.

Vânia também cita um cuidado especial com o visual. "Utilizamos muitas cores, a escola tem de ter um toque alegre, fica até parecendo um shopping; o estudante se sente bem" (leia o quadro "De olho no orçamento").
Marcos Campos, engenheiro responsável pela manutenção da Unimep, expressa uma preocupação: a falta de troca de experiências e informações com outras instituições de ensino superior. "Seria interessante que os encarregados dos setores de engenharia e de manutenção patrimonial das universidades trocassem mais informações e criassem um banco de dados com nomes de empresas", diz.

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