segunda-feira, 1 de março de 2010

Universidades em obras

Com ajuda de seus estudantes portadores de necessidades especiais, instituições de ensino facilitam a rotina no campus com adaptações em edifícios e espaços de uso público

Estamos atrasados. Assim Izabel Loureiro, presidente da Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde), define o preparo das universidades federais para receber alunos com necessidades especiais. O tempo, neste caso, é literalmente uma referência: no próximo dia 20 de dezembro, vence o prazo de três anos, previsto por decreto presidencial, para que os órgãos e entidades do governo promovam "as adaptações, eliminações e supressões de barreiras arquitetônicas existentes nos edifícios e espaços de uso público". A avaliação é de que muito precisa ser feito, embora ações isoladas bem-sucedidas despertem cada vez mais atenção de instituições e de profissionais do ensino superior para questões referentes aos portadores de algum tipo de deficiência (física, visual, auditiva, mental ou múltipla). Nas escolas pagas, o contexto parece o mesmo: se de um lado há IESs totalmente despreparadas, na outra ponta existem aquelas que oferecem solução ideal a determinadas necessidades. Excluídas as adaptações mais comuns (rampas de acesso, portas e banheiros modificados e vagas reservadas em estacionamento), algumas medidas só vingam com o diálogo, a partir de indicações do próprio aluno com alguma necessidade específica sobre como sua rotina no campus pode ser facilitada. Esse diálogo dispara um processo descomplicado e de baixo custo para as instituições, apesar de a falta de informação a respeito solidificar impressão contrária. Num país em que as pessoas com algum tipo de deficiência representam aproximadamente 13% do total de habitantes, seria surpreendente se as universidades e faculdades não tivessem estudantes com necessidades especiais em suas listas de aprovados nos vestibulares. Por isso, algumas instituições que encontraram suas alternativas já conseguem recuperar boa parte do tempo perdido. Intérpretes e orientação para mobilidade "O trabalho da Corde é divulgar o mundo da pessoa portadora de deficiência. Existe uma série de normas do Ministério da Educação que regulamenta como devem ser as instalações de uma universidade. Mas, em muitos lugares, isso ainda é desconhecido. O acesso à biblioteca, na maioria das vezes, por exemplo, é dificultado por escadas. Não poderia ser assim. É na biblioteca que está o saber. Mas não podemos nos restringir aos portadores de deficiência física. Os demais também sofrem. Imagine um portador de deficiência visual que depende de um livro no sistema braile para aprender", instiga Izabel Loureiro. Na Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), a linguagem braile está presente em muitos pontos das instalações acadêmicas. Mesmo com pouca idade, o Centro de Apoio Acadêmico aos Deficientes (Caad), criado para informar sobre acessibilidade, preparar materiais didáticos, desenvolver programas, treinamento de funcionários e orientação a professores e colegas de classe, é reconhecido por suas realizações, tanto pelos alunos da própria IES quanto pela comunidade, que também tem acesso irrestrito aos serviços do centro. "Antes de criarmos o Caad, a Unicid recebera, em 1999, alunos com deficiência visual. Na época, tivemos o caso de uma aluna que fazia provas transcritas para o braile graças à dedicação do professor Sérgio Augusto de Naddeo, hoje diretor do centro de apoio. Essa experiência inicial motivou a criação do Auxílio ao Deficiente Visual (ADV), mas ele ficou 'pequeno' por conta da propaganda dos alunos, e partimos para o Caad", lembra a professora Edileine Vieira Machado, responsável pela coordenação do programa. A expansão do Caad aconteceu não apenas pela quantidade de atividades, mas também pelos tipos de necessidades assistidas. Hoje, os alunos podem solicitar intérpretes da Linguagem Brasileira de Sinais (Libras), carteiras anatômicas, apoio psicológico e orientação para mobilidade - a pessoa portadora de cegueira ou de visão prejudicada aprende a andar sozinha, com auxílio de bengala, em ambientes fechados e abertos, em áreas comerciais e a utilizar transportes coletivos. "Sem dúvida, esses programas melhoram muito a convivência dos alunos. Por causa de todo esse apoio, muitos deles deixam suas escolas e nos procuram em busca de uma assistência maior. Além disso, cuidamos do encaminhamento de nossos estudantes com necessidades especiais para o mercado de trabalho. Agora, ações como estas são obrigação de todas as IESs", aponta a coordenadora. Segundo ela, a Unicid é a primeira instituição de ensino superior do país a desenvolver um programa de reabilitação básica, indicado pela Organização Mundial de Saúde para países em desenvolvimento. O serviço deve oferecer orientação, comunicação, apoio psicológico e aulas sobre práticas do dia-a-dia. "O estudante, quando chega, já se sente amparado, participando amplamente do convívio com outros estudantes. Algo também muito importante é que o acadêmico que não tem necessidades especiais, com a convivência, aprende a ter contato com o diferente. Ele toma conhecimento da necessidade de respeitar o próximo e descobre que o portador de deficiência possui também suas habilidades e que é muito capaz", completa Edileine. Iniciativa inédita As Faculdades Integradas Rio Branco (Firb) é outro exemplo de quem partiu do zero e hoje é ponto de referência para estudantes com deficiência auditiva que desejam estudar em São Paulo. Em 2000, três alunos surdos se inscreveram e foram aprovados no vestibular da instituição, o que criou a necessidade de intérpretes da Libras. Eles foram contratados e mantidos com recursos da escola - iniciativa inédita no Estado. "Nunca tinha lidado com surdos. Isso foi motivo até de uma situação curiosa: quando usei a palavra deficiente no primeiro contato com uma aluna, ela respondeu imediatamente que não era deficiente, que era surda mesmo. Ou seja, às vezes, criamos títulos que, na convivência, perdem o sentido", observa Maria Genny Caturegli, coordenadora dos cursos de Pedagogia e Letras, que concentram o maior número de alunos surdos matriculados na Firb. A presença deles na faculdade gerou o interesse de colegas e professores pela rotina de quem possui deficiência auditiva, culminando, em 2001, com o seminário Espaço Aberto: o Surdo nas Faculdades Integradas Rio Branco, oportunidade em que foram discutidas questões sobre necessidades e interesses dos alunos. "No início, a primeira pergunta foi: como lidar com eles? Mas logo decidimos pela contratação dos intérpretes. Quanto aos professores, por causa da falta de costume, sentiram certa dificuldade com o fato de o estudante surdo não olhar diretamente para eles, mas para o intérprete. Mas todos aprendemos com o tempo", resume Maria Genny. A cadeira de Pedagogia possui hoje dois alunos no 2o ano e cinco na primeira turma, refletindo a repercussão do amparo oferecido pela instituição. A coordenadora explica que atualmente tanto os alunos surdos quanto os "ouvintes" - como são chamados aqueles que escutam na lista de chamada - já estão acostumados à inserção. Nem mesmo eventuais "excessos" da língua portuguesa prejudicam o aprendizado. "Quando falamos uma palavra muito específica durante a aula, sem que ela tenha um gesto equivalente na Libras, os intérpretes soletram para os alunos", acrescenta. Apesar da necessidade de participação dos intérpretes nos diálogos, eles são aconselhados pela Firb a separarem-se dos alunos nos horários de intervalo. A razão disso, segundo Maria Genny, é "acabar com a 'paparicação' que existia no começo da experiência, para que os estudantes mantenham um contato mais intenso". Ela comenta que, além do convívio com o diferente, resultado observado também por Edileine Vieira Machado, da Unicid, os estudantes ouvintes podem viver uma experiência a que não estão acostumados, mostrando interesse em se aprofundar. "Hoje, muitos alunos perguntam quando daremos um curso de Libras", diz. X nos pontos críticos A Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) descobriu que tinha problemas de acessibilidade por intermédio de um de seus alunos. Após vivenciar na prática algumas dificuldades, Felipe Simões Quartero, que utiliza uma cadeira de rodas motorizada, decidiu enviar ao reitor da instituição as indicações dos locais onde deveriam ser feitas as adaptações. "Teve um semestre em que a direção distribuiu material impresso com o mapa da instituição. Aproveitei para marcar com X os pontos onde tinha mais dificuldade. Havia muitos degraus, por exemplo, na biblioteca. Então, mandei uma carta ao reitor com as minhas observações. Lembro que ele disse: 'Já pensávamos em mudar e, em breve, mudaremos'", conta o estudante, que faz o curso de Ciências da Computação. Sem a orientação de Felipe, a escola poderia levar mais tempo para se preocupar de fato com o assunto, sentindo até dificuldade em identificar os locais considerados de difícil acesso. "O campus da Metodista foi construído na década de 70, uma época em que ainda não havia essa preocupação com o deficiente em geral. A partir de 1999, passamos a nos preocupar mais com o tema. Para isso, contamos com o Felipe. Ele mapeou os locais que precisavam de mudança e nos ajudou muito. Construímos rampas nas calçadas e eliminamos as escadas. Internamente, também adaptamos um edifício, instalando o elevador. Ainda restam dois edifícios para se fazer as mesmas reformas, e esperamos terminar tudo até o próximo ano", prevê Márcio de Morais, vice-reitor Administrativo da Metodista. O estudante, por sua vez, usufruiu desde o primeiro momento as alterações concluídas. "No dia em que dei a primeira passeada após as reformas, andei na calçada com todo mundo, o que me fez sentir mais próximo das pessoas. Antes de a faculdade atender aos meus pedidos, estava perto da calçada, mas, ao mesmo tempo, longe dela. A faculdade sempre teve a preocupação de me escutar, chegando a reparar na necessidade de eu ter aula em salas no andar térreo. Além disso, utilizo duas mesas especiais", completa Felipe Quartero. Detalhes que antes passavam despercebidos, agora fazem parte dos projetos de reforma ou construção de instalações. O exemplo mais recente é o novo prédio acadêmico do Campus Planalto. Uma das principais preocupações foi a de preparar a unidade para cursos da área de Saúde, com infra-estrutura para a manutenção de clínicas e laboratórios. Tudo isso, porém, condicionado ao conceito de maior conforto aos usuários do edifício. As experiências destas três instituições - como as de outras IESs que não cabem nesta matéria - apontam para o que Izabel Loureiro, a coordenadora da Corde, enfatiza: "Não é possível tratar o portador de deficiência da mesma forma que se trata uma pessoa comum. Não. É preciso saber que o tratamento diferenciado é necessário, mas de forma que potencialize a pessoa." Regras à mesa As instituições que decidem melhorar a acessibilidade de suas instalações devem respeitar normas técnicas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). No caso dos portadores de deficiência física, segundo legislação nacional, a Norma Brasileira Regulamentadora (NBR) a ser seguida é a de no 9.050, cujo conteúdo determina as regras de acessibilidade a edificações, espaço, mobiliário e equipamentos urbanos. As reformas do espaço físico, além disso, precisam atender a outras normas referentes a questões de segurança em geral (saídas de emergência, especificações de segurança em elevadores etc.). Por este motivo, as adaptações não podem fugir aos padrões previstos pelos documentos da ABNT, ou as modificações podem acabar prejudicando ainda mais a acessibilidade dos portadores de deficiência física. As normas podem ser adquiridas na entidade (www.abnt.org.br). No caso da NBR no 9.050, o custo até o fechamento desta reportagem era de R$ 65,90 (formato impresso) ou de R$ 289,96 (formato digital).

revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=10503

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